Concurso da Ufopa para docentes de jornalismo será alvo de denúncia no MPF
Candidatos alegam notas repetidas, fuga de tema e falta de acessibilidade em prova que avançou pela madrugada de terça (27) em Santarém
A seleção para o cargo de docente de jornalismo da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, deve ser levada à Justiça Federal. Um grupo de candidatos planeja ingressar com uma representação no Ministério Público Federal (MPF) para denunciar o que chamam de irregularidades ocorridas na prova escrita e na etapa de leitura, realizadas na última segunda-feira (26). Entre as queixas estão o suposto favorecimento de uma candidata que teria fugido do tema, a ausência de atas oficiais e falhas graves de acessibilidade. Em nota enviada à Redação Integrada de O Liberal, a instituição negou qualquer desvio de conduta e afirmou que o certame cumpre rigorosamente as normas do edital e os princípios da transparência.
O processo seletivo teria sido marcado por um cenário de exaustão física extrema. A leitura pública das provas, iniciada às 15h de segunda-feira (26), teria se estendido de forma ininterrupta até as 3h30 da madrugada de terça-feira (27). Sem assistência médica ou segurança no local, os participantes afirmam que o cansaço comprometeu a isonomia da avaliação.
Candidata relata falta de apoio
Uma candidata solicitou atendimento especial e relatou ter sido desrespeitada durante o exame. Segundo o relato, o ambiente era barulhento e não houve controle adequado do tempo de prova.
“Eles estavam na porta da sala conversando e me atrapalhando. Não me informaram o horário de início e disseram que só avisariam quando faltasse uma hora para o fim, o que teria prejudicado meu raciocínio. Fui ler minha prova meia-noite, senti queda de pressão e não havia suporte médico. A sensação é de que fomos desumanizados nesse processo”, afirmou a participante, que preferiu manter o anonimato.
Grupo aponta fuga de tema e ausência de atas
A polêmica aumentou após relatos de que uma aprovada não teria seguido o ponto sorteado na prova escrita. De acordo com os candidatos, o tema sorteado foi o número cinco, mas a concorrente teria escrito sobre o tema um.
“Todo mundo testemunhou que a prova dela estava com fuga do tema, pois a leitura é pública. Ela foi a primeira a ler. Mesmo assim, ela foi aprovada na oitava posição. Para piorar, os organizadores não registraram ata de nada”, denunciou outro candidato sob condição de anonimato.
Instabilidade no portal e notas idênticas causam revolta
Nesta quarta-feira (28), a divulgação dos resultados teria intensificado a revolta entre os inscritos. O portal oficial da instituição apresentou instabilidades, com o documento sendo publicado e removido sucessivamente às 8h, 12h e 15h. As notas apresentaram coincidências estatísticas: 22 candidatos receberam exatamente 3,92, enquanto outros 12 ficaram com 5,17.
A composição da banca examinadora também é questionada por candidatos, que afirmam que a maioria dos avaliadores seria de áreas como Letras e Sociologia, com apenas um jornalista presente. "A banca só tem uma pessoa que tem uma base na Comunicação e nenhum deles tem condição de avaliar se a gente sabia ou não tecnicamente da coisa. Vimos uma série de textos que cometeram deslizes em conceitos do Jornalismo, mas que mesmo assim foram aprovados", relatou uma das fontes consultadas.
Participantes pretendem levar o caso ao MPF
O grupo que contesta o resultado afirma que a medida junto ao MPF é necessária para tentar garantir a transparência da universidade federal. Eles pretendem pedir a anulação total do certame, citando o descumprimento de normas de acessibilidade e desrespeito ao edital. “Temos tudo para impugnar. Não houve espelho do tema sorteado da prova escrita, uma coisa que é imprescindível em qualquer concurso”, acrescentou a fonte.
Ufopa nega irregularidades e defende autonomia da banca
Em resposta à Redação Integrada de O Liberal, a Ufopa informou que não houve padronização artificial de notas. Segundo a instituição, a banca utiliza uma matriz de correção objetiva que pontua estruturação, domínio do assunto e precisão da linguagem, o que pode resultar naturalmente em notas coincidentes. Sobre a formação da banca, a universidade afirmou que o jornalismo possui interfaces com as Ciências Humanas e que a composição observou as normas institucionais.
Quanto ao horário avançado da leitura das provas, a Ufopa justificou que o prolongamento decorreu do elevado número de participantes e da necessidade de cumprir a etapa pública de transparência.
Sobre a acessibilidade, a instituição declarou que dispõe de protocolos de inclusão. "Ressalta-se que todas as solicitações formalmente registradas foram integralmente atendidas, não havendo qualquer prejuízo, omissão ou negativa de atendimento. Nenhum candidato deixou de ser atendido, sendo garantidas as condições necessárias para a plena participação no certame, em conformidade com a legislação vigente e os princípios da acessibilidade, isonomia e inclusão", detalha o comunicado.
A universidade também negou a retirada ou republicação de notas, afirmando que os documentos seguiram o processamento regular de recursos administrativos. "O que ocorreu foi o regular processamento dos recursos administrativos interpostos pelos candidatos, com análise técnica pela banca examinadora, seguido da publicação do resultado final, conforme o cronograma e os procedimentos previstos em edital", acrescenta a assessoria de comunicação da instituição.
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