Exposição sobre mulheres históricas do Pará marca reabertura do Arquivo Público do Estado
Programação inclui visitas guiadas e um ciclo de palestras voltado a estudantes, pesquisadores e ao público em geral até 20 de março
Espiã cabana, prostitutas presas em Santa Izabel durante a ditadura militar, uma mulher escravizada que solicitou liberdade à Justiça, indígenas escravizadas em fuga e uma moradora da Cidade Velha considerada “chefe de família”, com posses no período colonial. Essas são algumas das histórias reveladas pelo acervo do Arquivo Público do Estado do Pará, na mostra que segue para visitação até o dia 20 de março, de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h, no salão principal do prédio. A programação é aberta ao público.
O material faz parte da exposição “Mulheres na história da Amazônia: liberdade, poder e resistência”, que reúne documentos e registros históricos que evidenciam o protagonismo feminino na formação social, política e cultural da região. A iniciativa marca o Mês da Mulher, comemorado em março, e também a reabertura do espaço ao público na última segunda-feira (23).
De acordo com o diretor da instituição, Leonardo Torii, a documentação reúne registros policiais, judiciais, administrativos, legislativos, cartas trocadas entre autoridades e demais materiais que contam a história do Estado. As personagens apresentadas são definidas como mulheres que não têm seu nome reconhecido pela história oficial, mas que ajudaram a quebrar a ordem social de sua época, em geral, marcada pelo machismo e patriarcado.
“A ideia da exposição é mostrar mulheres que, ao longo da história, quebraram um pouco da ordem vigente da sociedade. São mulheres que, mesmo com todo o rigor, machismo e misoginia da sociedade da época, conseguiram ter uma atuação ativa e relevante”, destaca o diretor do Arquivo Público do Estado do Pará, Leonardo Torii, que também atuou na curadoria da exposição.
“Temos uma espiã cabana, que vinha para Belém conseguir informações com os soldados e levava para o Eduardo Angelim [lavrador, líder do movimento da Cabanagem] no interior. Ela foi presa e o documento diz que era uma das espiãs mais ardilosas. Apresentamos uma escrava que organizou a fuga de 24 escravos em uma fazenda do Marajó e uma mulher que ganhou terras do rei de Portugal. Nada disso é comum para a época”, exemplifica.
Gabriele Vitória, estudante do sétimo semestre do curso de História da Universidade do Estado do Pará (Uepa), reconhece a relevância da exposição. “O protagonismo feminino não é tão explorado dentro da historiografia. Então, o Arquivo trazer isso para o público é muito importante para que tenha uma visibilidade maior para essas protagonistas da história do nosso Estado”, diz.
Programação
Além da exposição, a programação inclui visitas guiadas e um ciclo de palestras voltado a estudantes, pesquisadores e ao público em geral. Nesta quarta-feira (25), a visita será destinada a pessoas em situação de rua. Na sexta-feira (27), o espaço receberá alunos do 6º ano do ensino fundamental de uma escola particular. Nos dois próximos sábados, 28 de fevereiro e 7 de março, terá palestras.
Segundo Torii, a programação foi pensada para ampliar o alcance da instituição para além de historiadores e pesquisadores. “A ideia é quebrar a ideia de que o Arquivo é um local para estudiosos. O Arquivo é público, qualquer cidadão pode ter acesso. Os pesquisadores podem utilizar o acervo para fazer uma pesquisa acadêmica. Já para o público mais geral, é mais uma questão de ilustrar a nossa história”, ressalta.
Para o estudante Bento Souza, do oitavo semestre de História da Universidade Federal do Pará (UFPA), o Arquivo apresenta uma oportunidade de complementar à formação universitária. “Locais como o Arquivo Público são necessários para salvaguardar a história, a memória e compreensão da identidade de um povo. Buscar essas outras fontes de conhecimento é justamente buscar complementação para essa formação profissional”.
“A gente só consegue entender o presente a partir do passado. A formação do povo paraense enquanto sociedade está no passado, então, os nossos problemas de hoje têm origem no passado. Portanto, a gente precisa voltar ao passado para visualizar soluções ou alternativas para seguir nossas vidas. E esses documentos ajudam a entender como foi o passado para se produzir conhecimento histórico”, finaliza Leonardo Torii.
Patrimônio histórico
Fundado em 1901, o Arquivo Público do Pará é uma das instituições mais antigas da região e o segundo arquivo público mais antigo da Amazônia - atrás apenas do Amazonas, somando 124 anos de história.
Criado inicialmente para abrigar também a Biblioteca Pública, o espaço funciona no prédio que anteriormente sediou o antigo Banco Comercial do Pará. Em 1986, com a construção do Centro Cultural e Turístico Tancredo Neves (Centur), hoje Fundação Cultural do Pará (FCP), a Biblioteca Pública foi transferida para o novo espaço, consolidando a separação institucional.
Em 1982, o edifício, erguido no contexto da Belle Époque, foi tombado como patrimônio histórico. A construção preserva características originais, como estantes centenárias de aço “pé de leão”, importadas da França, além de mármore italiano, elementos que refletem a influência europeia na arquitetura de prédios públicos da época, como o Theatro da Paz e o Museu do Estado do Pará.
Relevância nacional
O Arquivo Público foi criado com a missão de reunir, proteger e disponibilizar a documentação histórica do estado. Antes de sua fundação, muitos documentos estavam dispersos e corriam risco de perda. Hoje, a instituição abriga cerca de quatro quilômetros lineares de documentos, sendo considerada o quarto arquivo mais importante do país em volume e relevância de acervo preservado.
Os registros mais antigos remontam ao período colonial, enquanto os documentos mais recentes datam de 2008. O acervo não contempla só o Pará, mas também os estados que antes compunham o Grão-Pará e Maranhão, Entre as peças históricas está, por exemplo, o documento de adesão do Amazonas à Independência do Brasil, um dos muitos registros que demonstram a importância do arquivo para a história de toda a região amazônica.
Serviço:
Programação especial de reabertura do Arquivo Público do Estado do Pará
Período: 23 de fevereiro a 20 de março
Local: Arquivo Público do Estado do Pará
Endereço: Tv. Campos Sales, 273 - Campina, Belém (PA)
Entrada gratuita
Programação completa:
Exposição de documentos históricos “Mulheres na história da Amazônia: liberdade, poder e resistência”
Visitação: até 20/03, de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h
25/02 (quarta-feira)
9h30 — Visita guiada para pessoas em situação de rua
27/02 (sexta-feira)
9h30 — Visita guiada para alunos do 6º ano do ensino fundamental da Escola Sistema de Ensino Rosana Bastos
28/02 (sábado)
9h — Palestras:
"Arquivos sobre a Cabanagem: relatos de uma jornada nos acervos paraenses"
Palestrante: Prof. Dr. Roberto Lopes
"O blockchain e o uso na autenticidade da carteira nacional de vacinação digital: uma aproximação com a diplomática digital"
Palestrante: Msc. Yago de Oliveira Costa
"Inteligência arquivística e transformação digital"
Palestrante: Msc. Elenice Janaú Ferreira
07/03 (sábado)
9h — Palestras:
"Veias de spray: o movimento artístico em Belém do Pará (1980–1999)"
Palestrante: Msc. Edvan da Silva Conceição
"As experiências de populações indígenas com doenças no Grão-Pará oitocentista"
Palestrante: Profa. Msc. Sara da Silva Suliman
"A Segunda Guerra Mundial no Pará e o escrutínio dos arquivos"
Palestrante: Prof. Dr. Tunai Rehm Costa de Almeida
"Entre fragmentos e silêncios: os desafios de reconstruir trajetórias negras nos arquivos"
Palestrante: Prof. Msc. Helder Lima
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