CONTINUE EM OLIBERAL.COM
X

Necessária solidariedade

Lorena Filgueiras

A pandemia global do Covid-19 parou o globo e enquanto aguardamos que surja uma cura para o vírus, (re)descobrimos (e reafirmamos) que Ciência e solidariedade – ou o amor ao próximo – salvarão o mundo em que vivemos. 

A psicóloga Ana Carolina (*nome trocado, a pedido da própria entrevistada) mora sozinha no bairro da Cidade Velha, em Belém, e tem cozinhado aos domingos, para mais pessoas. “Aqui no meu prédio, moram muitos idosos. Só no meu andar, são dois casais, que embora sejam independentes e tudo mais, estão sozinhos. Sei que os filhos não deixam faltar nada, mas imagino a dor em não poder tê-los por perto. Tenho pais idosos também e, por sorte, minha irmã ainda mora com eles, então fico mais tranquila. Quando tudo isso começou, liguei para meus vizinhos num domingo e perguntei se aceitariam um pouco da feijoada que estava fazendo. Eles aceitaram e, desde então, almoçamos ‘juntos’, mesmo que separados. Juntos, porque sei que ficam felizes e almoçam praticamente na mesma hora que eu”, conta.

Nossa entrevistada não parou nos vizinhos – lembrou também do porteiro de domingo, “gente boa demais”, como ela define. “Interfonei e disse que estava colocando algo no elevador pra ele pegar. Além do feijão, foi um pouco de tudo que eu tinha feito: farofa, arroz branco, uma laranja... e um pequeno frasco plástico com álcool 70%, para higienizar as vasilhas, antes de comer. Ele me ligou muito feliz. Afirmou que ia guardar o sanduíche, que estava em sua mochila, pra dar para o auxiliar de limpeza, que também estava tirando serviço”. E tem sido assim aos domingos, desde que o isolamento social foi defendido como medida para conter a disseminação do vírus. “Precisamos pensar em todos que por limitações físicas, sociais ou financeiras, têm menos”.

Assim também, o almoço ocorre “em família”, na medida do possível. Ana Carolina* revela que combina com a irmã, que mora com os pais, que o cardápio seja igual ao que ela cozinha em casa e, desta forma, garante ainda mais conexão – até porque almoçam se vendo e conversando, por meio de uma chamada de vídeo. “A primeira vez em que fizemos isso, o coração apertou e as lágrimas quase vieram, mas pensei nos meus velhos, que já passaram por tanta coisa e que tão lá, demonstrando força e normalidade. Aliás, eles lerão a revista e vão saber que eu sou eu”, ri a psicóloga. “Quero que saibam que são meus modelos, meus amores e que continuarei firme no propósito de aguentar essa distância para logo reencontrá-los”, diz. E finaliza: “pai, mãe e mana, quando isso tudo passar, vamos fazer um almoço à base de muita caipirinha e torresmo. Prometo!”. 
Recado dado. 

Ana Carolina* é um dos exemplos deste movimento espontâneo que tem tomado conta do Brasil: o da solidariedade. Individual ou coletiva, o sentimento de ajudar ao próximo é cada vez maior e mais frequente. 

Uma corrente do bem

O fotógrafo e voluntário André Sá pede um tempinho para responder as perguntas, por meio de um aplicativo de mensagens no celular. Estava chegando de Algodoal, para onde foi com o intuito de entregar cestas básicas a algumas famílias. Ele integra o grupo “Corrente do Bem”, que nasceu em 2014, por iniciativa de 4 amigos que decidiram cozinhar e distribuir o alimento na noite de Belém, para pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

image Corrente do Bem (Acervo Pessoal)

Outras pessoas decidiram somar esforços e hoje, depois de 6 anos, quase 200 voluntários (e entusiastas ou doadores) fazem parte do grupo.

“Os membros do grupo se revezam em equipes de 10 a 15 pessoas todas as semanas, para levar cerca de 250 refeições às pessoas em situação de rua. Passamos a semana arrecadando doações de alimentos. Nas quartas-feiras, a partir das 14h, iniciamos o preparo da comida, que é sempre muito nutritiva, com pouco sal e com bastante verduras e legumes. A distribuição ocorre no mesmo dia, a partir das 20h, e o alimento chega quentinho em vários pontos da cidade, como o Chapéu do Barata, em São Brás; a Praça Waldemar Henrique e a Praça da República”, explica.

É regra básica entre ajudar, sem abrir mão da segurança neste período. “Para mantermos a segurança do grupo, não estamos nos reunindo para preparar os alimentos, nem estamos aceitando doações de ingredientes, por não garantirmos que estes cheguem higienizados. Nossa ação está arrecadando doações financeiras e, posteriormente, apenas um integrante do grupo compra os ingredientes e, sozinho, prepara as refeições, que estão sendo distribuídas duas vezes na semana pelo grupo parceiro Pará Solidário”, detalha André.

Além dos insumos frescos e refeições, ele revela que as doações em dinheiro têm ajudado na compra de alimentos não-perecíveis e de higiene, que são enviados ao abrigo Missão Belém, “outro parceiro essencial, que recebe moradores de rua e dependentes químicos para reabilitação”, finaliza.

Tela Firme

Também nascido em 2014, o Coletivo Tela Firme atua fortemente no bairro da Terra Firme. “[o grupo] nasceu como uma ferramenta da periferia, para se contrapor à uma narrativa de que as periferias são lugares perigosos, assim como evidenciar os valores que aqui residem, principalmente no canto da arte e cultura. Um grupo de pessoas se reuniu para usar a internet e mostrar uma Terra Firme jamais conhecida”, explica o voluntário Francisco Batista, mais conhecido como Zeca da TF.

image Tela Firme (Acervo Pessoal)

“No começo, nosso formato era de TV Comunitária via web, tínhamos uma espécie de apresentador e produzíamos várias matérias sobre o bairro. Nesses tempos de coronavírus, nossa atuação [está ocorrendo por meio] da articulação com mídias comunitárias e coletivos das várias periferias do Brasil e da nossa região. Uma das campanhas de que estamos fazendo parte é a hashtag #Covid19naperiferia, que reúne vários grupos que atuam nas periferias e que produzem material audiovisual, orientando a comunidade como se prevenir do Covid-19, bem como mostrar as várias iniciativas que acontecem nos territórios”. 

Da comunicação, o Coletivo passou a atuar na arrecadação e doação de alimentos às famílias que precisam dessa ajuda. “Em parceria com movimentos e entidades da Terra Firme, o Tela Firme coordena a campanha ‘Terra Solidária’, que tem como objetivo apoiar famílias em situação de vulnerabilidade, [por meio de doação] de alimentos não perecíveis e material de higiene e limpeza. A campanha também tem um grupo formado por profissionais de saúde do bairro, que denominamos ‘Saúde Firme’, que orienta as pessoas sobre a COVID-19; formas de prevenção e como proceder em casos suspeitos. Já realizamos distribuição de kits de limpeza e higiene. Durante a entrega do material, distribuímos ainda panfletos, com orientações à prevenção ao Covid-19 e, brevemente, faremos a distribuição das cestas básicas”, adianta.

Batista conta que o grupo atende 22 famílias de um beco na Terra Firme, “que vivem em situação de extrema vulnerabilidade, agravada pela péssima situação de saneamento básico. São famílias que sofrem com as enchentes. Nós, do coletivo, estamos seguindo a orientação do distanciamento social, cuidando da higiene, utilizando bastante água e sabão”. As cestas básicas, segundo ele, ajudam diretamente as 22 famílias citadas. Além dos alimentos, insumos de higiene e limpeza compõem os kits e ajudam, segundo Batista, aproximadamente 60 pessoas.

A solidariedade não ocorre em momentos pontuais. “Ajudar as pessoas é perceber o quanto são necessários, em uma sociedade tão egoísta, gestos de solidariedade – não só no ato de doar algo material, mas de ser solidários na luta para que essas pessoas tenham dignidade! Que elas sejam despertadas para saber que é dever do Estado garantir qualidade de vida às pessoas, principalmente as que mais precisam. O gesto mais bonito que testemunhamos foi o engajamento da própria comunidade nas atividades”, finaliza.

Para conhecer mais:
@correntedobembelem
@tela_firme

Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞
Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱
Troppo
.
Ícone cancelar

Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo!

Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é.

Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos.

Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado!