Personagens, memes e muito ‘égua’: o humor paraense feito por mulheres cresce nas redes
Jai Alves e Égua Manu transformam cotidiano, regionalidade e vivências pessoais em conteúdo que ultrapassam as telas
Nesta quinta-feira (26), Dia do Comediante, o riso ganha novos rostos. Se antes o humor era majoritariamente dominado por homens, hoje mulheres ampliam sua presença e ocupam espaços na comédia, especialmente no ambiente digital.
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Com personagens como a mãe paraense “estressada”, o neto sapeca Flavinho, a filha “para frente” Robertinha e a irreverente Machuda, a criadora de conteúdo e roteirista Jaiane Alves, mais conhecida como Jai, de 23 anos, transforma situações do cotidiano de quem vive entre o interior e a capital paraense em esquetes leves e bem-humoradas.
“Meus personagens são inspirados, em boa parte, na minha história, porque eu crio a partir de lembranças que vivi na minha infância. Cada personagem reflete uma realidade de um lar ribeirinho ou até mesmo em alguém que você conhece, por exemplo, um vizinho”, explica a comediante de stand-up.
Natural de Afuá, na Ilha do Marajó, ela está há quase seis anos na internet e soma mais de 780 mil seguidores no Instagram. “Comecei a gravar minhas ideias e postar durante a pandemia, no isolamento social. Foi ali que as coisas começaram a mudar na minha vida e que a minha criatividade virou arte no momento mais difícil. Nessa época, tinham pessoas morrendo, muita gente triste, e eu estava ali invadindo a casa delas com humor e alegria”, afirma, acrescentando que muitos dos seguidores conquistados naquele período seguem acompanhando seu trabalho até hoje.
Riso como afirmação cultural
Jai avalia que o humor pode exercer papel importante na afirmação cultural da região Norte, ampliando a visibilidade do Estado para além de estereótipos, principalmente no on-line.
Ao mesmo tempo, a comediante reconhece que o caminho ainda apresenta desafios quando se trata da presença feminina no humor. “A comédia tem um público muito grande que os homens carregam, mas nós mulheres também somos muito engraçadas, temos nossas ideias, nossas piadas e a gente também é ótima nisso”, afirma.
Do feed para o palco da representatividade
Assim como Jai, outras mulheres vêm utilizando as redes sociais para transformar vivências regionais em humor e conquistar novos públicos.
Se a ideia é se atualizar sobre o que está acontecendo no mundo de forma bem-humorada, os resumos de fofocas de famosos narrados com expressões e trejeitos tipicamente paraenses se tornaram uma das marcas de Emanuela Freitas, conhecida nas redes sociais como Égua Manu, de 26.
Com cerca de 102 mil seguidores no Instagram, ela integra a nova geração de humoristas do estado e produz conteúdo que mistura regionalidade e temas variados.
“Eu falo sobre tudo: qualquer assunto do mundo pode virar humor para mim. A diferença é que eu sempre reajo do jeito mais paraense possível. Vou levando as gírias, o jeito de falar, o tempo, o olhar. Eu levo o Pará comigo para todo canto”, afirma.
A identidade regional, segundo ela, nunca foi estratégia, mas essência. “Eu sou paraense, eu falo ‘paraense’, eu reajo ‘paraense’. Isso nunca foi uma escolha pensada, é identidade mesmo. Quando fui fazer humor, não tinha como ser diferente. Eu não criei um personagem regional, eu só coloquei na internet o jeito que eu já existia fora dela”, explica.
Entre críticas e coragem
Apesar do alcance e da identificação do público com seu conteúdo, Manu também lida com o outro lado da exposição nas redes sociais: os julgamentos. “As pessoas atacam tudo: aparência, postura, o que eu posso ou não falar. Já me atacaram até pelas minhas doenças”, relata.
Mesmo diante das críticas, ela afirma que isso não a faz recuar. “Eu entendo que as pessoas dão o que têm. Hoje eu sei quem eu sou, conheço meu espaço, minha voz, e não negocio minha identidade para agradar ninguém".
Sobre o espaço feminino na comédia, ela avalia que as cobranças são constantes. “Mulher no humor ainda precisa provar o tempo todo que não está ali só para fazer graça rasa. Eu sofro julgamentos, cobranças e ataques, isso é real”, diz.
Para a criadora de conteúdo, ocupar esse espaço também carrega responsabilidade. “Não me vejo sozinha, me vejo como parte de um movimento de artistas amazônicos que estão ocupando espaços e contando suas próprias histórias”, afirma.
Ela também destaca o impacto pessoal da arte. “Eu me cobro muito, mas acredito profundamente que a arte me salva todos os dias. Fazer humor, escrever e criar me ajudam a organizar o que sinto e seguir em frente”, afirma.
Segundo a humorista, quando recebe relatos de seguidores que se sentiram acolhidos por meio dos vídeos, a comédia ganha outro significado. Além do humor, Manu também utiliza o perfil no Instagram para compartilhar reflexões sobre sua luta contra a depressão, expondo vulnerabilidades e incentivando outras pessoas a se olharem com mais cuidado e respeito.
“Quando isso acontece, deixa de ser só entretenimento e vira propósito. Ajudar pessoas acabou se tornando uma missão de vida para mim”, pontua.
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